A 'fusão' entre Gol e Azul: o futuro de uma ilusão
- Cris Schmidt
- 5 de nov. de 2025
- 2 min de leitura
Atualizado: 6 de nov. de 2025
Passageiro festeja a derrocada do negócio: nova companhia poderia abocanhar 60% do mercado
Em 1927, Sigmund Freud publicou "O Futuro de Uma Ilusão", obra em que argumenta que a religião é uma criação psíquica destinada a proteger o ser humano de suas angústias e de seus desejos em busca de segurança diante de um mundo incerto. Freud, assim, chama de ilusão aquilo que nasce de um desejo profundo, mas inviável, por este não ter lastro na realidade.
Algo semelhante pode ser dito sobre o "codeshare" (acordo entre duas ou mais companhias aéreas para comercializar assentos em um mesmo voo), assinado por Gol e Azul em 24 de maio de 2024, e sobre o MOU ("memorando de entendimento") para uma possível fusão, firmado em 15 de janeiro deste ano: a busca de duas empresas pela segurança de maiores margens, via redução da concorrência, em um ambiente de incertezas marcado por flutuações cambiais, variações no preço do combustível e sucessivas crises globais.
O desejo foi tão avassalador que suplantou a realidade e nem mesmo o Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) foi previamente notificado sobre os dois atos. Felizmente, em 25 de setembro último, a realidade se impôs ao desejo desmedido: ambas as companhias informaram ao mercado o encerramento do "codeshare" (que poderia durar até 23 de maio de 2026) e das discussões sobre a fusão.
Parece ser, tomara, o fim da "Marcha da Insensatez", livro de Barbara Tuchman (1984), em que a historiadora analisa episódios de governantes que insistiram em decisões desastrosas mesmo diante de evidências fracassadas.
O passageiro brasileiro agradece. A redução da concorrência, efetiva e potencial, já era um fato preocupante e a sociedade esteve diante da possibilidade de criação de uma companhia com cerca de 60% do mercado, o que deixaria o consumidor com poucas opções. Como ocorre com o fim de toda ilusão, apesar da frustração pela não concretização, resta o aprendizado: é preciso respeitar, nesse caso, as instituições de defesa da concorrência, Cade e Anac (Agência Nacional de Aviação Civil), e os ritos que as estruturam.
É inegável que a pandemia trouxe desafios expressivos, sobretudo financeiros, para as empresas aéreas no Brasil. O caminho mais fácil, contudo, a fusão entre concorrentes, não coincide com a trilha que maximiza o bem-estar do passageiro. Neste ponto, o desejo das firmas não coaduna com a realidade. Há alternativas mais sólidas, como já demonstrado: Latam e Gol ingressaram no Chapter 11 (recuperação judicial nos EUA) e saíram muito mais robustas e competitivas.
A Azul, que fez o mesmo em maio, tende a seguir percurso semelhante e deverá sair igualmente fortalecida, se necessário com auxílio de empresas estrangeiras interessadas no mercado brasileiro. Vale lembrar que a American Airlines aportou US$ 200 milhões à Gol em 2022.
O futuro, que parecia ameaçador sob a sombra de uma fusão, revelou-se, afinal, mais um capítulo do que Freud chamaria de o futuro de uma ilusão: um caso em que o desejo mostrou-se insuficiente para moldar a realidade, que, ao ser confrontada, expôs obstáculos concorrenciais intransponíveis.
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